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Friday, January 14, 2011

Trabalhos de Amor Perdidos - Personagens

Direção I

A interpretação com propriedade de um personagem começa com a inteira compreensão de seu caráter. Em Trabalhos de Amor Perdidos, Shakespeare didaticamente define a personalidade de cada um por intermédio de suas contrapartidas no texto. A partir dessa didática, pode-se ampliar esse conhecimento para criar o personagem com outros instrumentos – os noves tipos de personalidade, por exemplo.


1) Quem é o Rei de Navarra?

No texto: “o único herdeiro de quantas perfeições o homem se possa jactar
No eneagrama dos nove tipos de personalidade, o Rei é o número 5, ávido por conhecimento, morador da caverna. Posta-se em sua porta. Alegoricamente, quer levar seus companheiros para um internato. Ele quer preencher-se de cultura. O amor é uma poesia de que ele se nutre. Seus passos são meticulosos.


2) Quem é a princesa da França?

No texto: augusto modelo de beleza e cortesia. “Meu bom lorde Boyet, minha beleza, ainda que muito escassa, não precisa dos adornos de vossos elogios. A beleza é julgada pelos olhos de quem compra, jamais pelos reclamos convencionais do vendedor estulto. Tenho menos prazer em ver meus dotes louvados do que vós em ostentar argúcias, despendendo vosso engenho no elogio do meu”
No eneagrama: a Princesa é a número 6, atenta aos seus próprios interesses; da caverna, afasta-se ao passeio público apenas para consultar sobre os movimentos da vida. Inteligente, pesquisadora, sagaz, porém comedida.
Nota: a exaltação reiterada de sua beleza poderia supor que ela é o número 2, porém o desdém e a astúcia com que trata o Rei não é muito próprio do caráter erótico do 2.


3) Quem é Biron?

Desde logo, é o protagonista.
No texto: Nunca me foi dado conversar com ninguém de mais espírito sempre dentro dos lindes do decoro. Os olhos não cessavam de aprestar-lhe vista para o espírito: o que viam era por este logo aproveitado para assunto de alegre brincadeira, que a língua habilidosa, expositora de sua inteligência, apresentava com palavras tão justas e graciosas, que os velhos se detinham para ouvi-las e os moços se quedavam fascinados; tão doce e fluente a fala lhe safa.... Meu bom lorde Biron, já tinha ouvido muitas vezes falar de vós, bem antes de vos ter conhecido. A grande boca do mundo vos proclama zombeteiro de enormes cabedais e frases finas que atirais contra todos que vos caem ao alcance do espírito.
Harold Bloom: Biron é narcisista, triunfo erótico masculino. Charmoso, exuberante e desenvolto, como se projeta o próprio Shakespeare.
No eneagrama: é o típico número 7, articulado, estrategista, manipulador. Nada lhe escapa aos olhos.


4) Quem é Rosalina?

Desde logo, a protagonista.
No texto: Verdadeiro relógio da Alemanha, que em conserto está sempre se desmanchando e que horas não dá certas, salvo quando vigiado, para andar sempre no passo. E mais, ainda: a pior das três! aquela bicha branca, de sobrolhos de veludo, que, em vez de olhos, ostenta duas bolas de piche... Ela é o que ela mesma queira.
Harold Bloom: “implacável Rosalina”... A mais arisca das quatro nobres renitentes. Shakespeare teria se apaixonado por uma Dama Morena, personagem de Sonetos. Em Trabalhos de Amor Perdidos, ele a regasta com Rosalina cuja relação com Biron apresenta nuanças sadomasoquistas e atitudes ambivalentes.
No eneagrama, Rosalina é a número 7, também articulada, estrategista, manipuladora, nada lhe escapa à mente elétrica.


5) Quem é Longaville?

No texto: cavalheiro perfeito no consenso dos seus pares, conhecedor das artes e famoso na carreira das armas. Tudo quanto determina fazer, ele faz com capricho. A única jaça no fulgor de sua virtude, é certo espírito muito afiado, de par com uma vontade, digamos, rude; não poupa quem quer que dentro do âmbito lhe caia. Ele diz: eu coraria, se me visse alvo, assim, da zombaria. No final, Maria diz: é um bobo bem disposto. Tal como vós, que sois um pernilongo
No eneagrama, um Longaville número 8 cai muito bem. Físico e erótico. “Que louco não mostrara muito juízo, se perjurasse em troca do paraíso?” Tampouco nossos olhares.

6) Quem é Boyet?

Desde logo, é o profeta da peça.
No texto: vos escolhemos, visto conhecermos vosso merecimento, a fim de serdes o eloqüente patrono desta causa.
Harold Bloom: Boyet faz soar o tema de uma contra-espirituosidade feminina, tão sagaz que é capaz de destruir qualquer possibilidade de satisfação erótica.
No eneagrama: ele é o número 1, com a característica de escudeiro, protetor e guia. Senhoras! Ó senhoras! As armas! Preparai-vos! Vencedoras precisais ser do Amor que se aproxima para vos atacar com prosa e rima. A postos vossas graças! Ao combate! Ou fugi, se é que o medo vos abate.


7) Quem é Dumaine?

No texto: Dumaine, um moço muito bem dotado, amado por quem quer que ame a virtude, por ser de tanto espírito, que as coisas feias ele deixa aprazíveis, e de forma capaz de conquistar só por si mesma. Vi-o em casa do Duque de Alençon; muito pouco, em confronto com o muitíssimo que me foi dado ver, é quanto agora poderia eu dizer para elogiá-lo.
No eneagrama; o número 9, afável, conciliador, frágil: por duas vezes no texto, ele ameaça desmaiar diante de desafios..
8) Quem é Dom Armando?

No texto: um viajante de Espanha, refinado que a moda sempre traz em roda-viva e de frases o cérebro enxertado, a quem a fala vã causa deleite como a mais agradável harmonia, verniz por fora, apenas, mas aceite como árbitro em questiúnculas do dia. Esse Armando, da fábula nascido, vai contar-nos em termos rebuscados quanto a morena Espanha tem crescido nos feitos de seus homens olvidados.
No eneagrama: é o número 3, superficial, voltado para o sucesso imediato e fulgaz.



Quem é Dull?

No texto: Antônio Dull, pessoa de bom nome, boa conduta, bons costumes e grandemente estimado.
No eneagrama: é o número 9, pacífico e cumpridor de sua rotina.



9) Quem é Maria?

No texto: ela é a herdeira de Faulconbridge. Dama graciosa e linda!
No eneagrama: é a número 4, discreta e sabida, seu desdém é impiedoso:

MARIA — Nos tolos a tolice é mais discreta do que no sábio que virou pateta, porque este nada faz com maior gosto do que provar que é um bobo bem disposto.
Das quatro, dá esperança de corresponder o amor pretendido:
LONGAVILLE — E Maria, que diz?
MARIA — Após um ano, o luto tirarei por um fulano.
LONGAVILLE — Terei paciência, ainda que o tempo é longo.
MARIA — Tal como vós, que sois um pernilongo.
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10) Quem é Catarina?

No texto: de Alençon a herdeira, uma rosa que se embalava danosa.
No eneagrama: seria interessante interpetá-la sob o número 8, durona, talvez como precussora da megera domada. Seus conselhos a Dumaine são indicativos fortes de que eles formariam um casal em que ele seria o domado: Barba, saúde e honestidade; assim com triplo amor, alcançareis o fim.
DUMAINE — Posso dizer: agradecido, esposa?
CATARINA — Não, não! Em doze meses mais um dia não ouvirei nenhuma cortesia. Vinde com o rei: se me sobrar, acaso, muito amor, vosso amor terá bom azo.
DUMAINE — Serei fiel; assumo o compromisso.
CATARINA — Não jureis; perjurais sem dar por isso.



11) Quem é Moth?

No texto: Jovem de engenho agudo!
No eneagrama: aspirante a número 7, bem articulado e manipulador.


12) Quem é Costard?

Desde logo, é o bobo da corte.
No texto: bobo que te faz rir.. essa alma iletrada e ignorante... esse vaso de pouco fundo.
No eneagrama: é o número 9, no seu estilo glutão.


13) Quem é Jaqueneta?

Desde logo, foi provavelmente inspirada na protagonista de Decameron, de Bocage, sobretudo na volúpia e no ardor que provoca nos homens.
No texto: uma rapariga... uma filha de nossa avó Eva, uma fêmea, ou, por maneira mais adequada ao teu entendimento, uma mulher... fraco vaso.
No eneagrama; é a número 3, erótica, sensual e conquistadora.


14) Quem é Dull?

No texto: Eu mesmo represento sua pessoa, por ser o oficial de justiça de Sua Graça.
No eneagrama: é o número 8, físico na coragem.

Thursday, June 10, 2010

DEZ ANOS DE DRAMATURGIA

Montagem da peça Neny Hotel Inn comemora dez anos de carreira do dramaturgo.

Sissa Hache

De autoria de Hermano Leitão, Neny Hotel Inn é a mais recente comédia deste dramaturgo paraibano, erradicado há vinte anos em São Paulo. A estréia da montagem no Teatro do Centro da Terra, em 08 de maio deste ano, marcou o aniversário de dez anos da carreira do comediógrafo. De forma recorrente, Hermano produz, assina a direção e também atua no espetáculo ao lado de mais dez atores (Alexandre Vargas, Roger Rodrigues, Hermano Leitão, Luana Martins, Neiva Maria, Claudiane Carvalho, Franklin Medeiros, Eiki Sasaki, José Mônaco, Magda Meire e Tiago Malta). Sua estética artística já consolidada revela uma personalidade teatral rica em referencias de linguagem e crônica social.

TEXTO
Diante do espetáculo, a primeira reação do público é a admiração ao texto de Neny Hotel Inn, em virtude da extraordinária criatividade, construção dramática despretensiosa e agilidade da trama posta em um único ato. Hermano revelou que nessa obra deixou os personagens “dialogarem” com ele, e compara o processo de criação do texto a um “ataque esquizofrênico”, pois foi o primeiro texto em que “liberou” esse diálogo com eles sem preocupação com a forma, ao contrário dos primeiros em que “inibiu as vozes” e preferiu a pseudo segurança da fórmula cartesiana. Na peça As Mulheres de Cássia, por exemplo, houve um trabalho intelectual sobre o conteúdo das letras das músicas gravadas por Cássia Eller e a correspondência psicológica dessas escolhas, inclusive com inserção literal de trechos incorporados à fala dos personagens. Igual modelo de criação foi reiterado em Cavalheiros de Shakespeare, em que o dramaturgo colocou em cena o encontro de Hamlet com Iago, mediante a reconstrução da saga pessoal de cada um, com o propósito de Iago, alferes de Othelo, reivindicar a genialidade de seu caráter obscurecido pela fama do Príncipe da Dinamarca.

DIREÇÃO
Aliada à perfeita compreensão do texto, a direção de Hermano Leitão segue igual leveza do texto ao se verem atores vibrantes e ágeis em cena. O diretor explicou que tem por principio o esgotamento da compreensão da dramaturgia a fim de os “interpretes” encontrem a “zona de conforto” na interpretação e, como objetivo final, divirtam-se ou se realizem com a criação de uma obra de arte que eles são os artistas responsáveis. Hermano acredita também no principio do prazer no processo de intermediação entre o texto e o ator, onde o diretor de teatro é um facilitador desse encontro. “O ator não precisa sofrer para criar sua obra de arte, tampouco o diretor tem de ser um carrasco para forçar o artista a expelir uma criação”, explica. Acrescenta ainda que cada ator tem seu próprio processo de criação, e o diretor deve perceber as características dos atores para reunir de forma harmônica os diferentes matizes autorais em uma obra coletiva.

CARICATURA ou TIPOS

Um olhar menos atento aos personagens que desfilam em Neny Hotel Inn pode dar a impressão de que os eles são meras caricaturas, mas a razão de eles ficarem tão impregnados nas impressões prolongadas de quem assiste ao espetáculo é o apoio psicológico utilizado para definir o caráter de cada um. Hermano Leitão revela que aplica os conceitos de Os Nove Tipos de Personalidade do Eneagrama, de Claudio Naranjo, que reverbera os arquétipos consagrados por Carl Jung, para adequar personagens com personalidades. O objetivo dessa adequação, segundo o dramaturgo, é realizar a empatia deles com a existência do inconsciente coletivo, que não depende de experiências individuais, como no caso do inconsciente pessoal, mas, sim, das experiências reais, ainda encenadas de forma ficcional, para expressar-se, já que são predisposições latentes, e existem tantos arquétipos quantas as situações típicas da vida.

CENÁRIO NATURALISTA e CONTEÚDO SURREAL

Outra ferramenta recorrente desses dez anos de realização teatral é o confronto entre o conteúdo surreal das situações encenadas com o cenário naturalista. De um lado, a crônica social é apresentada a partir de fatos inusitados ocorridos na vida econômica, política e social mundo afora. Do outro lado, a contextualização desses fatos desloca-se para um ambiente de verossimilhança incontestável. Hermano Leitão afirma que é uma brincadeira de reinventar o teatro do absurdo por meio da confrontação entre a realidade e o inusitado. Ao colocar o personagem Renan do Rego Grande com um chapéu de couro e sandálias franciscanas, faz referência - ainda que não se preocupe com a exata percepção do público -, com a polêmica do Deputado Federal que foi ameaçado de sofrer um processo de decoro parlamentar por insistir em usar um chapéu no plenário da Câmara Federal. Há também a situação cômica da personagem Valsinete Bezerra Manha, uma traficante que veio da África – inclusive com um penteado de tribo nigeriana -, que, ao ser perguntada se teria reserva para se hospedar, manda fazê-la imediatamente, ao invés de pedir para fazer o check in.

DEZ ANOS

Depois de assistir Neny Hotel Inn, a impressão mais relevante é o testemunho de uma concepção teatral contemporânea, revigorante e repleta de coragem. Por meio de suas referências diversas, o público sai feliz e com vontade de repetir a experiência de se divertir como se tivesse se hospedado em um hotel muito prazeroso. É a recompensa pela conquista da maturidade intelectual de um dramaturgo que comemora dez anos de dedicação ao teatro. Seu objetivo confesso de investigar os conceitos e os preconceitos elaborados pelo homem lhe rende profundidade e empatia, sobretudo porque se apresenta de forma simples, direta e generosa, porque nos instiga a uma percepção crítica da realidade, a uma contestação do cotidiano, a uma desconfiança de que existe o imperceptível, e porque sua obra carrega um verdadeiro sentimento de humanidade.